setembro 28, 2004

Dependência

Ponham-me um destes montes sobre a boca
e tão completamente que
o ruído dos carros cesse e o céu
se não veja ― sequer a lembrança de as aves
voarem sob o azul falso dos místicos.

Assim ficava só com o meu cérebro,
sem nenhuma das tretas que é costume
pertencerem às regras da poesia,
banais sempre em excesso como é este
cavalgamento   e os metros repetidos.

Não ouviria nada, salvo o curso do sangue,
essas águas de um tempo que apodrece,
sem imagens apócrifas, inversas
às do relógio velho que meu pai não traria
porque ambos já não vivem, como a infância.

Sem casa, sem cidade, sem a falsa cúpula
da igreja de um bispado, tão antiga
que se notam as rugas do vento secular,
vento que eternamente sopra na erosão
das pedras sem que Deus nada possa fazer

e sem que a vida ocorra no silêncio
dos poemas, a morte no meu cérebro
virgem de tão vazio, o monte sobre a boca
como um castigo mítico inventado por mim,
para meu uso, quando não puder falar.

© as musas esqueléticas

Rascunho

28.9.04

Ponham-me um destes montes sobre a boca
e tão completamente que
o ruído dos carros cesse e o céu
se não veja ― sequer a lembrança de as aves
voarem sob o azul falso dos místicos.

Assim ficava só com o meu cérebro,
sem nenhuma das tretas que é costume
pertencerem às regras da poesia
vulgares em excesso sempre banais sempre em excesso como é este
cavalgamento     e os metros repetidos.

E não ouvia nada Não ouviria nada, salvo o curso do sangue,
essas águas de um tempo que apodrece,
sem imagens apócrifas, inversas
às do relógio velho que meu pai não traz traria
porque ambos não existem já já não vivem, como a infância.

Sem casa, sem cidade, sem a falsa cúpula
do templo da igreja de um bispado, tão antigo antiga
que se notam os riscos as rugas do vento secular,
vento que eternamente sopra na erosão
das pedras, sem que Deus nada possa fazer,

e sem me ocorrer que me ocorra a vida ocorra no silêncio
dos poemas, a morte no meu cérebro
virgem de tão vazio, o monte sobre a boca
como um castigo mítico inventado por mim,
para meu uso, quando não puder falar.

Publicado por mb em 06:52 PM | Comentários (8)

setembro 27, 2004

Apontamento sobre a Ausência

A ausência é uma grande flor na noite
que o sol com os seus dedos não realça
e faz viver somente na memória.
Acordará, como hoje permanece
sob as folhas dos plátanos nocturnos.

© as musas esqueléticas

Rascunho

27.9.04

A ausência é uma grande flor na noite
que o sol com os seus dedos não realça
e oculta fundamentefaz brilhar viver somente na memória.
Acordará, como hoje permanece
sob as folhas dos plátanos nocturnos.
A flor, a cotovia dos teus campos
do outro lado, em Espanha, só aguarda
que a ausência, como a noite o escuro as trevas, se dissipe.

Publicado por mb em 01:28 AM | Comentários (3)

setembro 26, 2004

O Comboio

Digamos no final deste sábado que
a novidade foi nada se ter passado,
que tudo cada vez se torna mais eterno,
profundamente chato e sem contornos,
e que não é possível um pássaro de fogo
entrar-me no escritório, vulgo, biblioteca.
Sei tão bem as cidades onde andei
que bocejo somente em pensar ir
até o aeroporto. Todas essas cidades
se resumem à estrada que por aqui vai
não me interessa aonde.
Mesmo a rapariga que achei bela,
a semana passada desfeou-se
e as árvores, porque é Outono,
perderam todo o brilho que tiveram,
e nada disto é digno de citar-se.
Portanto regressemos ao princípio.
Nada sucede ― e o meu coração lança
a crédito outro dia que não posso
nunca mais reaver. E quantos dias
assim hão-de somar-se em anos idos?
Oxalá não me ponha a fazer contas
a esse tempo que um dia vou perder,
nem escute o comboio em que miúdo
pensei fugir de casa para sempre.

© as musas esqueléticas

Rascunho

26.9.04

(sem emendas: uma a 28.9)

Digamos no final deste sábado que
a novidade foi nada se ter passado,
que tudo cada vez se torna mais eterno,
profundamente chato e sem contornos,
e que não é possível um pássaro de fogo
entrar-me no escritório, vulgo, biblioteca.
Sei tão bem as cidades onde andei
que bocejo somente em pensar ir
até o aeroporto. Todas essas cidades
se resumem à estrada que por aqui vai
não me interessa aonde.
Mesmo a rapariga que achei bela,
a semana passada desfeou-se
e as árvores, porque é Outono,
perderam todo o brilho que tiveram,
e nada disto é digno de citar-se.
Portanto regressemos ao princípio.
Nada sucede ― e o meu coração lança
a crédito outro dia que não posso
nunca mais reaver. E quantos dias
assim se somarão hão-de somar-se em anos idos?
Oxalá não me ponha a fazer contas
a esse tempo que um dia vou perder,
nem escute o comboio em que miúdo
pensei fugir de casa para sempre.

Publicado por mb em 01:35 AM | Comentários (3)

setembro 21, 2004

Anticircunstancial (?) Sobre o Outono

       O culto do Eu
       já não me parece legítimo,
       nem sequer o culto do Inverno
.
       Astrophel

Levantam-se as aves migratórias à mínima
folha em queda espiral.
Outono inútil aos morangos silvestres
e às ondas do mar. Tudo se despe da pureza
com que um dia o colhemos,
e os campos ficam cada vez mais nus
em redor da cidade antiga
e dos trilhos que pisámos.
É tempo de chegar o vento
e de nos aninharmos como bichos
dentro de nós ― sozinhos, hibernando.

© as musas esqueléticas

Rascunho

21.9.04

Levantam-se as aves migratórias à mínima
folha na sua queda em espiral em queda espiral.
Outono inútil aos morangos silvestres
e às ondas do mar. Tudo se despe da pureza
com que um dia o colhemos,
e os campos ficam cada vez mais nus
em redor da cidade antiga
e dos trilhos que pisámos.
É tempo de chegar o vento frio
e de nos aninharmos como bichos
dentro de nós ― sozinhos, hibernando.

Publicado por mb em 07:30 PM | Comentários (14)

setembro 20, 2004

O Burgo e o Livro de banda Desenhada

Leia aqui se não sabe do escândalo medieval

Que da heresia nada reste na cidade,
teria escrito Martinho de Dume
a D. Remissol, bispo suevo deste burgo.
A cidade tem coisas curiosas.
De vez em quando, passados muitos séculos,
surgem por entre o tráfego
fantasmas em farrapos e o seu séquito.
É sabido que um velho seminarista,
de nariz tão rapace como as águias,
mesmo depois de morto
já tinha convocado um bispo,
por doutrina e princípio
do reinado de Afonso Henriques,
D. Odório, que, mais os seus frades militantes,
impediram Lenine de falar há trinta anos
na praça da República, vulgo Rossio,
em vez de combaterem os restos de Yusuf
no ano de mil cento e quarenta e tal.
Oh, o burgo seria bem melhor a Dali
do que Port Ligat sem mais sombras
que os quatro ventos gregos tão azuis.
Aqui a gente hiante trasladada
dos infernos de Bosch serviria ao talassa
como um hino exaltante ― Remissol
com a espada de ferro e os seus bigodes,
à frente da ululante turba-multa,
entrava pelo centro comercial dentro
à procura da banda desenhada
AS MULHERES NÃO GOSTAM DE FODER.
Não ponho as mãos no lume pelo bispo,
não sei de lusitanas e suevas,
se estão em prometido céu,
se nada disso então era preciso,
se a terra lhes foi dura.
Do mesmo modo não defendo o autor,
que goste de rapazes é com ele,
sendo porém o livro já connosco,
mesmo certos de que é mais lixo,
não vá Goering puxar pela pistola
e confiscar os nossos às estantes.
Acreditem, a cidade é velha demais,
cheia de olhos e ouvidos,
habitada por ínclitos censores.
Se o vinho é bom e o queijo além da serra,
melhor será a estrada da rosa-dos-ventos
e as mulheres ― adoram uma boa cama
como as de todo o mundo.
Só que não gemem à vontade
e não querem ouvir a palavra foder,
tamanho é o temor à gente casta ―
depressa chamaria um bispo ao esconjuro,
lá do confins da Baixa Idade Média.

© as musas esqueléticas

Publicado por mb em 05:15 PM | Comentários (4)

setembro 19, 2004

Um Modo de Olhar a Lua

A unha de luz do quarto minguante
há-de servir poetas
de versos mais ou menos irreais,
escritos ou sentidos, tanto faz,
se num e noutro caso
a poesia se escreve no espelho de um rio
que se quebra à menor perturbação.
Aquela grande lua quase oculta
também me fascinou,
a mim, que sempre a soube
um satélite próximo demais
e prefiro as estrelas e o sol cheio de árvores.
Erguia-se a poente a Lua,
na aguarela do ocaso,
enorme minguante de platina sobre
o crepúsculo e os cumes negros da IP 5.
        Em infindável fila, os farolins na estrada tão lenta
contrapunham-se em luz vermelho-rubra,
estranhos e tão mínimos
face ao poente e à Lua
que a meio da viagem, um por um,
os carros mergulhavam no vazio
que os engolia ao fundo, no horizonte.

Foi isto que a surpresa
do quarto minguante me causou,
e pensei no poema que faria.

                           E ainda sinto

esse instante em que a Lua reinou sobre
o mundo sem ninguém ― de súbito
assumindo o lugar que sempre teve,
desde que rege o ciclo das marés
e a eclosão das sementes e da chuva,
muito antes de ligar-se ao sangue das mulheres.

© as musas esqueléticas

Rascunho

19.9.04


A unha de luz do quarto minguante
há-de servir a muitos poetas
de versos mais ou menos irreais,
escritos ou sentidos, tanto faz
se num e noutro caso
a poesia se escreve num no espelho efémero de um rio
sensível e mortal letal que se quebra à menor perturbação
por vinda de sob as águas.
Aquela grande lua quase oculta
também me fascinou, a mim, que sempre
soube ser um satélite deserto

a mim, que sempre a soube
um satélite próximo demais

e prefiro as estrelas e o sol cheio de árvores.
Erguia-se a poente, pois, a Lua,
nas tintas aguarelas do ocaso
enorme minguante enorme de platina sobre os cumes da IP 5
o crepúsculo e os cumes negros da IP 5.
        Uma Em infindável fila de os farolins na estrada tão longa lenta
contrapunha vermelho-rubra a sua luz,
contrapunham-se em luz vermelho-rubra,
tão estranha, tão mínima
que no fim a meio da viagem, um por um,
os carros mergulhavam no vazio
que os esperava ao fundo da IP5, no horizonte.

Foi isto que a surpresa
do quarto minguante me causou,
e pensei neste no poema que faria.
que acabo de escrever.

                                  E ainda sinto

E só
Por um
esse instante em que a Lua reinou sobre
o mundo dos humanos sem ninguém, de súbito
reassumindo o seu lugar, quando
regia somente o ciclo das marés
e a eclosão de ovos de aves primitivas

assumindo o lugar que sempre teve,
desde que rege o ciclo das marés
e a eclosão das sementes e da chuva,
e só depois o ventre sangue das mulheres.
muito antes de ligar-se ao sangue das mulheres

Publicado por mb em 11:00 PM | Comentários (3)

setembro 15, 2004

Sobre a Distância

Dispersos pelo tempo, os olhos como
estrelas de repente separadas
e o chão quotidiano alheio
do que sem remédio o outro vai pisando,

com as coisas diversas que os afastam,
porque nada à distância pode ser
o mesmo livro, a mesma hora, a mesma luz
que incide sobre a mesa em que estão lendo

em salas diferentes, em cidades longe
dia a dia uma da outra, e entre elas
uma espessa substância se interpõe,
alongando-se o olhar pela auto-estrada,

nas florestas, nas casas de permeio,
e aldeias e armazéns que passam
na memória do carro, e outros carros iguais
são as vidas separadas de todos,

se a distância, a densa substância os retém
em sequestro dentro de si mesmos,
sem que o céu possa abrir-se e estarmos sós
não seja a intransponível migração.

© as musas esqueléticas

Rascunho

15.9.04

Dispersos pelo tempo, os olhos como
estrelas de repente separadas
e o chão quotidiano alheio
ao do que sem remédio o outro sem remédio vai pisando,

com as coisas diversas que os separam afastam,
porque nada à distância pode ser
o mesmo livro, a mesma hora, a mesma luz
que incide sobre a mesa em que estão lendo

em salas diferentes, em cidades longe
dia a dia uma da outra e entre elas
uma densa substância se interpõe,
alongando-se o olhar pela auto-estrada

nas árvores nas florestas, nas casas de permeio,
e aldeias e armazéns que passam a correr
na memória do carro, e outros carros iguais
como as vidas separadas de todos,

se a distância, a densa substância os retém
em sequestro dentro de si mesmos,
sem que o céu possa abrir-se e estar-se só estarmos sós
não seja a intransponível migração.

Publicado por mb em 02:30 PM | Comentários (6)

setembro 14, 2004

FELIPE BENÍTEZ REYES

*   *   *   *    *

A DIFERENÇA

Tu dando a uma metáfora
o sigiloso espectro de sentido.
Tu cuidando esse ritmo, a cadência
de sombra do teu verso, e à sua música
a memória deixando confiada.

Tu em redor de um verso que te expresse,
tu entre a escura luz.

                                   Quando lá fora
a vida se destroça em esplendor,
inocente e rotunda, e em nada parecida
a nenhum exercício de elegia.

© Tradução de as musas esqueléticas

LA DIFERENCIA

Tú dando a una metáfora
su sigiloso espectro de sentido.
Tú cuidando ese ritmo, la cadencia
de sombra de tu verso, y a su música
dejando confiada la memoria.

Tú afanado en un verso que te exprese,
tú entre la oscura luz.

                                Mientras afuera
la vida se destroza en su esplendor,
inocente y rotunda, y en nada parecida
a ningún ejercicio de elegía.

Publicado por mb em 12:59 PM | Comentários (3)

setembro 12, 2004

Soneto Imperfeito ou
dos Seres Inacabados

Dos ombros de uma estátua fui o mar,
por eles penetrei no fim do ser,
e ela, em louvor à luz, fingiu erguer
das ondas o seu corpo tão solar.

Hoje vejo-a à distância vaguear
por ido, anoitecido amanhecer;
nascera da alva espuma, era o prazer
já temor de cilícios a vibrar.

Lembrara no seu corpo outros aromas,
devolvera aos retratos a existência
e trouxera em tumulto o tempo à tona.

Fôramos, eu e o tempo, carcinomas:
silêncios a minavam e a prudência
animal que só quer a sua zona.

© as musas esqueléticas

Rascunho

12.9.04

Dos ombros de uma estátua fui o mar,
por eles penetrei-lhe o penetrei no fim do ser,
e em sacrifício ela, em louvor à luz, fingiu erguer
das ondas o seu corpo tão solar.

Hoje vejo-a na praia branquear à distância vaguear
em por ido, anoitecido amanhecer;
parecia de nascera da alva espuma, e era o prazer,
o tremor já temor de cilícios a vibrar.

Tinha lembrado nela Lembrar no seu corpo outros aromas,
despertara retratos do seu sono
restituíra devolvera aos retratos a existência
e trouxera em tumulto o tempo à tona.

Fôramos, eu e o tempo, carcinomas
que invadem o silêncio no abandono
de alguém que só queria a sua zona.

silêncios se a se a minavam e a prudência
animal que só quer a sua zona.


Publicado por mb em 11:13 PM | Comentários (2)

setembro 11, 2004

VERSOS DE UMA HIPÓTESE IMAGINADA

Não gosto de
poemas a puxar ao sentimento
como outrora do fado se dizia,
e os que escrevi recuso-os, mesmo os teus.
Não haverá guitarras nem turistas
no nosso funeral anónimo.
Depois de te encontrar perto das tágides,
há quantos anos já longe de ti,
bom seria se os versos falassem só de pássaros
ou se os votasse inteiro a Deus.
Enganado andaria, sei-o bem,
mas nem Deus nem os pássaros subiam
o pano do último acto,
nem da noite que chega receavas
os silvos das serpentes de Tirésias
como no inverno o vento que te assusta.

© as musas esqueléticas

Rascunho

11.9.04


NÃO GOSTO DE


DetestoNão gosto de
Aborreço
versos poemas a puxar ao sentimento
como outrora diria antes eu dizia do fado choradinho,
como outrora do fado se dizia,
e os que escrevi recuso-os, mesmo os teus.
Não haverá guitarras nem turistas
no nosso funeral anónimo.
Depois de te encontrar perto das tágides,
há quantos anos já longe de ti,

Melhor era que os versos bom seria se os versos falassem só de pássaros
ou se os votasse a Deus inteiro
depois de te encontrar junto das tágides.
Enganado estaria andaria, eu sei sei-o bem,
mas nem Deus nem os pássaros subiam
o pano do último acto só comigo
nem da noite que chega se ergueriam receavas
os silvos das serpentes de Tirésias
como no inverno o vento que te assusta.

Publicado por mb em 10:17 PM | Comentários (4)

setembro 09, 2004

REESCRITO SOBRE O JÁ ESCRITO

HARLEM

         ”Ellos son los que beben el whisky de plata junto a los volcanes
         Federico García Lorca

Há muito tempo sonhava ir
a esse Harlem irreal dos anos vinte,
disfarçado de negro em teoria,
de negro só na pele, como hoje os negros de Harlem,
sem que nada me torne afro-americano,
sem as exclamações de Lorca na lembrança,
sem lugar a mais reyes a não ser
negros tão poderosos como brancos
se todos eles beben el whisky de plata.
Vou fingir o coração com fome de ódio,
o corpo nos passeios junto à berma,
sítio de onde se vê o rio humano
sem nenhuma alegria ou esperança.
É um rio sem árvores, escuro
de mortes por espaço e vassalagem,
de miúdos como adultos sem idade
e lixo miserável de ex-notas de um dólar.
Deverei mergulhar o rosto nesse rio,
e camuflar-me, ser em tudo sósia:
como eles, africano alheio
de que África agoniza assassinada
e dos antepassados que lutavam
e traziam aos clubes de Harlem
versos de Langston Hughes em blues:
America never was America to me
entoavam. ― I am the darker brother.
E eu, máscara da noite, luzes e mulheres
no incessável devir que se repete,
enquanto as casas drenam para o Hudson
afluentes de vómitos e crack,
e de loiras que buscam grandes falos de circo
em prostíbulos negros masculinos.
Os palcos onde Billy Holiday cantou
são hoje de sexo ao vivo, ó puritana Albion
que ali mostras a pele branca, oculta
da poeira sulista dos O’Hara,
e o Duque é uma sombra, seco o som
que se ouvia do seu piano como água
em repuxos de sol que escureceu.
Há muito estrangulada a Renaissance
em livros e CDs por todo o mundo,
os negros, que hoje partem desse bairro
e lutam lado a lado com os brancos,
são soldados do império que conquistam,
atletas dos cem metros, astros do Globetrotters,
comedores de hambúrgueres
e netos de El Rey de Harlem que morreu,
sem dúvida porteiros como ele era:
hoje rondam o Cotton Club
fechado há setenta anos, na Lei Seca.
E o Harlem onde eu quis ir, o Harlem também fechou.

© as musas esqueléticas

O palimpsesto

         ”Ellos son los que beben el whisky de plata junto a los volcanes
         Federico García Lorca

Há muito tempo que sonho explorar
o Harlem irreal de há trinta anos,
travestido de negro em teoria,
sem nada que se aproveite como nos filmes,
sem as exortações de Lorca nos ouvidos,
sem lugar a mais reyes
que negros poderosos como brancos,
se todos beben el whisky de plata.
Vou fingir o coração com fome de ódio,
o corpo junto à berma nos passeios,
onde melhor se sente o rio humano
sem nenhuma esperança ou alegria.
É um rio sem árvores, de esgoto,
de mortes por espaço e vassalagem,
da miserável cinza das notas de um dólar,
e devo mergulhar o rosto nesse rio,
e camuflá-lo, e ser em tudo um sósia:
como eles, africano em teoria,
como eles, africano só na pele,
ignorante de que África agoniza,
máscara pela noite de luzes e mulheres
no incontável devir que se repete,
enquanto as casas drenam para o Hudson
afluentes de vómitos e esperma,
e fetos, abortados em preservativos,
das vaginas de loiras viciosas,
das mulheres que buscam falos grandes,
dos clubes de sexo ao vivo, ó puritana Albion
cuja alva pele ali deixaste oculta:
os negros, que nasceram nesse bairro
e lutam lado a lado com os brancos,
são soldados do império que conquistam
e netos de El Rey de Harlem que morreu,
e o Harlem a que sonho ir, o Harlem já não existe.

© as musas esqueléticas

Rascunho 7.9.04

Há muito tempo que sonho explorar
o Harlem cada vez mais distante irreal de há trinta anos,
travestido de negro apátrida em teoria
sem nada que se aproveite como nos filmes,
sem as exortações de Lorca nos ouvidos
sem ver outros reis de Harlem
sem haver razão de outros reis sem lugar a mais reyes
que negros poderosos como brancos,
se todos beben el whisky de plata.
e fingir Vou fingir
o coração com fome de ódio,
o rosto corpo pela berma dos passeios
onde melhor se apura mais o fluido humano:.
essa massa de sangue e de monóxido,
É um rio de fezes e de sangue,
de mortes por espaço e vassalgem,
da miserável cinza das nota de um dólar
e camuflar com essa cinza o rosto e ser
e devo mergulhar o rosto nesse rio,
e camuflá-lo, e ser em tudo um sósia:
como eles, africano sem savanas em teoria,
como eles, africano só na pele,
não sabendo sequer que África existe e morre,
ignorante de que África agoniza,
máscara pela noite de luzes e mulheres
no incontável devir que se repete,
enquanto apartamentos as casas drenam para o Hudson
afluentes de vómitos e esperma
e fetos, abortados em preservativos,
das vaginas de loiras viciosas,
das mulheres que pagam buscam falos grandes,
dos clubes de sexo ao vivo, ó puritana Albion
cuja alva pele ali deixaste oculta:

e os filhos que nasceram em mulheres de Harlem
hoje combatem lado a lado com os brancos,
sobre negros e brancos e miséria,

os negros, que nasceram nesse bairro
e lutam lado a lado com os brancos,
são soldados do império que conquistam
e netos de El Rey de Harlem,

e o Harlem que ia explorar já não existe.
e o Harlem a que sonho ir, o Harlem já não existe.

Publicado por mb em 11:49 PM | Comentários (6)

setembro 08, 2004

Apontamento de Manhã Cedo

Este sol que cintila nas janelas,
este cheiro a resina que se espalha
na manhã como todos as manhãs
em que deuses sem mística se alegram.

© as musas esqueléticas

Rascunho

8.9.04

Este sol que cintila nas janelas,
este cheiro a resina que se espalha
na manhã como todos as manhãs
em que deuses sem mística se alegram.

Publicado por mb em 11:08 AM | Comentários (7)

setembro 06, 2004

TED MILTON

NÃO QUERO NADA COM MISS JOAN HUNTER DUNNE,
PORQUE

tenho saudades da pequena Miss Smith
embora saiba que a sua cabeça é uma peneira

feita porém de prata pura

onde está sempre a crivar o sonho
de uma vida nova num penhasco alcatifado.

Sem dúvida seria alegre
viver consigo Miss ―

comprava-lhe até um armário de cozinha em mogno maciço
comprava-lhe até uma pia japonesa autenticada de marfim.

© Tradução de as musas esqueléticas

I WANT NONE OF MISS JOAN HUNTER DUNNE,
BECAUSE

I long for lhe Little Miss Smith
though I know she has lhe mind of a sieve

but it is made of pure silver

where all day she is sifting her dream
of a new life on the carpeted cliff.

Truly it would be bliss
to live with you Miss ―

I would even buy you a solid mahogany kitchen counter
I would even buy you a authenticated Japanese ivory sink.

Publicado por mb em 04:47 PM | Comentários (2)

setembro 05, 2004

FELIPE BENÍTEZ REYES

*   *   *

SOLEDADES

Vão-nos deixando sós os mais velhos. Ir-se-á
a fresca juventude e os seus amores cálidos.
Mas partindo de súbito, sucederão que coisas,
fomentarão que cartas, e que livros amargos.

Levantando vai já o tempo a alta torre
da solidão, que acinza o céu.
E chama-nos a sombra com a mão inimiga.
E entranha-se no escuro
a ferida memória.

A vida já nos leva por senda anoitecida,
sós, ante a destruição de quanto amamos.

E esse vento que afugenta as estrelas...

© Tradução de as musas esqueléticas

SOLEDADES

Nos van dejando solos los mayores. Se irán
la fresca juventud y los amores cálidos.
Y partirán de pronto, sucederán qué cosas,
propiciarán qué cartas, y qué libros amargos.

Alzando va ya el tiempo la alta torre
de la soledad, que nubla el cielo.
Y nos llama la sombra con su mano enemiga.
Y se adentra en lo oscuro
nuestra herida memoria.

Ya nos lleva la vida por senda entenebrada,
solos ante la destrucción de cuanto amamos.

Y ese viento que ahuyenta las estrellas...

Publicado por mb em 06:16 PM | Comentários (1)

setembro 01, 2004

FIM DE AGOSTO

As mulheres no frágil fim de Agosto
e o amor que há-de chegar, ou já chegou
e partiu, e no entanto os seios
abandonam-se em blusas leves,
estremecendo a cada passo,
guardados por botões tão pequenos.

A pele espantosamente branca onde
o sol não teve o corpo,
os mamilos mais cor-de-rosa
nos seios juvenis,
e mais negros os pêlos da púbis saliente
ainda com o sal do mar,
num triângulo isósceles, esguio
                                        e depilado.

Os biquinis que secam
para as próximas ondas não se imagina quando,
e se estarão na moda ainda.

Os miúdos que não querem largar
os baldes onde cabe o mar inteiro
e que, adultos, talvez saibam um dia
que o mar não cabe nos seus olhos.

As barracas e guarda-sóis
arrumados para o ano, em armazéns
feitos como antigamente de tábuas de pinho,
e num deles alguém imaginar-se
sob lençóis a ouvir as vagas
em noites invernais
e adormecer em paz
como se a voz do mar fosse um canto materno

Os areais desertos de onde o vento leva
os gemidos nocturnos
de amantes que não têm quarto.

E de manhã o vento que prossegue
              com as gaivotas
a limpeza das praias dedicadas no inverno
ao fundo do olhar, onde seres solitários
provavelmente anseiam outra vida.

As cadeiras e mesas empilhadas
nos bares sem ninguém,
cuidadamente limpos de conversas
por esse vento que é o tempo,
e onde inimagináveis coisas se passaram
e outras que são vulgares,
como fumar um charro dividido
à sombra dos bares de areal.

Os filhos que se fazem por acaso
a virgens que calhou se darem
e porque no verão afinal nada importa
senão oferecer o corpo ao sol
e deixá-lo ir na brisa, nas ondas, no desejo
que soa cristalino em gargalhadas.

E esse riso que acorda nos rapazes
uma vontade urgente de rasgá-lo,
vontade quantas vezes flagelada
em sanitas de praia,
as paredes com números escritos de
telemóveis que aceitam mulheres e casais,
ou homens, outros homens.

Os amigos que só se arranjam para as férias,
e ainda assim os dizem
se não chegou o tempo de serem conhecidos,
e por isso não há nenhum problema
em que desapareçam para sempre
nas ruas de cidades e países estranhos.

Amigos que se lembram duas ou três vezes,
de longe em longe confessando-se
apócrifas saudades
de um tal Francesco ou Eloisa,
como se os conhecessem de uma discoteca
da Via Tiburtina algures em Pescara,
e cada um fosse a casa do outro,
ano sim, ano não, em alternadas camas,
voando sobre a Europa voos imaginários.

Alguém que pensa em náufragos
de quando não havia praia,
somente o mês de Agosto à beira-mar
e nas serras e campos para leste,
e, pensando o passado, mede
a abóbada celeste e o mar e a História.

Os pescadores que morrem
em barcos que deixaram de existir,
e olham iates brancos e velozes
a atracar em marinas,
quem sabe se sonhando com um deles.

O espanto das miúdas
que não sabem ainda que tudo termina
e que na sua angústia breve
hão-de lembrar o fim do mês de Agosto,
se a sua pele dourada cor de pão
der mais nas vistas que um
vestido que se quer despido e se recusa.

As auto-estradas cheias de cansaço
e de filas de carros sem cessar,
tão pacientemente regressando
a este velho burgo onde não se ouve o mar.

A tensão dos motores que enche as ruas,
e as folhas dos carvalhos a receber o Outono
para serem o tempo
único de centenas de anos em seus troncos
nos parques da cidade.

A sé que avulta sobre os telhados
com os seus bispos mortos,
e as casas que esperavam há um mês.

E longe o mar que irá tornando agrestes
os areais, alçando o vento e as ondas
antes de o Inverno vir.

© as musas esqueléticas

Rascunho

31.8 - 1.9.04

As mulheres no frágil fim de Agosto,
e o amor que há-de chegar, ou já chegou
e partiu, e no entanto os seios
abandonam-se ainda nas camisas, em blusas leves,
estremecendo a cada passo,
guardados por botões tão pequenos.

E a A pele espantosamente branca onde
o sol não possuiu teve o corpo,
os mamilos mais cor-de-rosa
na rosácea dos nos seios juvenis,
e mais negros os pêlos da púbis saliente
ainda com o sal do mar,
num triângulo isósceles esguio
e depilado.

Os biquinis que secam
para as próximas ondas, não se imagina quando,
e se estarão na moda ainda.

E os Os miúdos que não querem largar
os baldes onde cabe o mar inteiro
e que, adultos, talvez saibam um dia
que o mar não cabe nos seus olhos.

As barracas e guarda-sóis em armazéns num armazém
de tábuas de pinheiro como outrora,
de resinosas tábuas de pinho como outrora
em madeira de pinho como outrora,

de tábuas aconchegantes como outrora
possivelmente alguém imaginando
neles ouvir as vagas sob os lençóis
em noites invernais

As barracas e guarda-sóis
empilhados para o ano em armazéns
feitos como antigamente de tábuas de pinho,
e num deles alguém imaginar-se
sob lençóis a ouvir as vagas

em noites invernais
e adormecer em paz
como se a voz do mar fosse um canto materno.

Os areais desertos de onde o vento leva
recusas e os gemidos nocturnos
de amantes que não tinham casa têem quarto.

E de manhã o vento que prossegue
com as gaivotas
a limpeza das praias dedicadas no inverno
ao fundo do olhar, onde seres solitários
provavelmente anseiam outra vida.

As cadeiras e mesas empilhadas
nos bares sem ninguém,
cuidadamente limpos de conversas
por esse vento que é o tempo,
e onde inimagináveis coisas se passaram
e outras que são vulgares
como fumar um charro dividido
nas costas desses bares de areal.
nas traseiras desses bares de areal
à sombra desses bares de areal.

ou tratar de esperadas festas
com ecstasy e sexo avulso.

E os Os filhos que se fazem por acaso
a virgens que calhou se darem
e porque no verão afinal nada importa
senão oferecer o corpo ao sol
e deixá-lo ir na brisa, nas ondas, no desejo
que soa cristalino em gargalhadas.

E esse riso que acorda nos rapazes
uma vontade urgente de rasgá-lo,
vontade quantas vezes flagelada
nas em sanitas de de praia
com números escritos nas paredes de
telemóveis que aceitam mulheres e casais,
ou homens, outros homens.

E os Os amigos que se fazem só só se arranjam para as férias
e que ainda assim se chamam amigos os dizem
se é cedo não chegou o tempo de serem conhecidos,
e por isso não há nenhum problema
em que desapareçam para sempre
nas ruas de cidades e países estranhos.

Amigos que se lembram duas ou três vezes,
de longe em longe confessando-se
apócrifas saudades
de um tal Francesco ou Eloisa
como se os conhecessem de uma discoteca
da Via Tiburni algures em Pescara,
e cada um fosse a casa do outro
ano sim, ano não, em alternadas camas,
voando sobre a Europa voos imaginários.

E alguém Alguém que pensa em náufragos
de quando não havia praia,
somente o mês de Agosto à beira-mar
e nas serras e campos para leste,
e, pensando o passado, mede
a abóbada celeste e o mar e os homens a História.

E os Os pescadores que morrem
em barcos que deixaram de existir
e olham iates brancos e velozes
a atracar nas marinas,
quem sabe se sonhando com um deles.

O espanto das miúdas
que não sabem ainda que tudo termina
e que na sua angústia breve
hão-de lembrar o fim do mês de Agosto,
se a sua pele dourada cor de pão
der mais nas vistas que um
vestido que se quer despido e se recusa.

As auto-estradas cheias de cansaço
e de filas de carros sem cessar,
tão pacientemente regressando
a esta cidade de onde se não ouve o mar.
a este velho burgo onde não se ouve o mar.

A tensão dos motores que enche as ruas
e as folhas dos carvalhos a preparar receber o Outono
para serem o tempo eterno,
único de centenas de anos em seus troncos
nos parques da cidade.

A sé que avulta sobre os telhados
com os seus bispos mortos,
e as casas que esperavam há um mês.

E longe o mar que irá tornando longe e agrestes
a paisagem os areais, alçando ondas e o vento
antes de o Inverno vir.

Publicado por mb em 01:34 PM | Comentários (8)